terça-feira, 19 de novembro de 2013

Ônibus: mais que um veículo, um retrato da sociedade

Edição de 2013 da VVR, exposição de veículos pesados antigos, teve modelos inéditos e mostrou mais uma vez como os transportes podem contar a evolução em vários aspectos.
ADAMO BAZANI –CBN
Jardineira de 1929 e ao fundo um ônibus superarticulado BRT da empresa Metra. Passado e presente se encontraram na VVR – Viver Ver e Rever, evento que procura mostrar uma parte da história do país, do cotidiano e de como as cidades se desenvolveram pela memória dos transportes. Foto: Adamo Bazani.
Jardineira de 1929 e ao fundo um ônibus superarticulado BRT da empresa Metra. Passado e presente se encontraram na VVR – Viver Ver e Rever, evento que procura mostrar uma parte da história do país, do cotidiano e de como as cidades se desenvolveram pela memória dos transportes. Foto: Adamo Bazani.
Economia, comportamento, mobilidade, urbanismo, sociedade, política, emoção, narrativas de amor, decepções, esportes, tradições culturais … para tudo isso, existe um professor que pode contar muita história: o ônibus.
Isso mesmo. Sem nenhum exagero, num País como o Brasil, o ônibus está inserido no dia a dia das pessoas e são as pessoas que verdadeiramente fazem a história.
E este fato foi provado mais uma vez pela “VVR – Viver, Ver e Rever – a Evolução”, evento realizado pela Primeiro Clube do Ônibus Antigo Brasileiro, que teve início em 2004 na garagem de ônibus da Expresso Redenção, em São Paulo, e hoje faz parte do calendário turístico oficial do Estado. O evento tem patrocínio da Mercedes Benz, mas são expostas todas as marcas de ônibus e caminhões, nacionais e importados, sem nenhuma restrição.
Em cada área do Memorial da América Latina, na Barra Funda, zona Oeste de São Paulo, onde a exposição é realizada desde 2007, uma história, um sorriso, lágrimas, emoção e muita saudade dos mais antigos e curiosidade e aprendizado para os mais novos.
Algumas pessoas, por pura paixão, dedicam há anos partes de suas vidas ao resgate da memória dos transportes e, com isso, acabam preservando a história das cidades e dos diversos contextos econômicos e sociais ao longo do tempo.
Um destes entusiastas é Salomão Jacob Golandski. Ele começou a colecionar materiais e informações sobre ônibus já com oito anos de idade, no Rio Grande do Sul, de onde veio especialmente para prestigiar o evento. Com a sabedoria dos seus 65 anos de idade, mas com a alegria e o entusiasmo de um menino, ele contava com orgulho sobre fabricantes de ônibus que hoje não existem mais, não são tão conhecidas, mas que contribuíram, e muito, para que os ônibus no Brasil sejam um dos mais respeitados em todo o mundo.
“Em 1956 andei muito de Papa Fila (uma grande carroceria de ônibus tracionada por caminhão – espécie de precursor do ônibus articulado), mas em 1958, quando a prefeitura de Porto Alegre comprou os primeiros monoblocos Mercedes Benz fiquei fascinado. Fazia questão de andar neles e surgiu minha amizade com vários motoristas. A paixão foi crescendo, fui pesquisando e comecei a visitar empresas que produziam ônibus em todo o País, desde a Eliziário, no Sul mesmo, até a Caio Norte, que ficava em Recife. O Brasil teve muitas encarroçadoras de ônibus que ajudaram no desenvolvimento geral do País. No Sul, podemos dizer que a Eliziário foi a professora, a instrutora e a inspiradora para as demais. Dela nasceram outras marcas como Iberdal Carrocerias de Ônibus, aberta por um ex funcionário da Eliziário, Azirmar Carrocerias de Ônibus, de um dos filhos do fundador da Eliziário. Também houve a Carrocerias de Ônibus Piasson. Um fato curioso é que em 1966 eu fui visitar a Piasson e no dia ganhei uma plaquinha da encarroçadora que ainda guardo como se fosse um tesouro. Em 2011, consegui encontrar um dos fundadores da fábrica de ônibus, o senhor Rosalino Piasson. Mostrei a placa para ele e a emoção foi muito grande. Ônibus é emoção” – contou Golandski.
E o entusiasmo de Salomão Jacob Golandski e de tantos outros apaixonados pelo setor de transportes é o que motiva o presidente do Primeiro Clube do Ônibus Antigo Brasileiro, responsável pelo evento, Antônio Kaio Casto, a continuar com a exposição e se esforçar para que a cada ano ela fique melhor.
“Em cada VVR são novas amizades, mais gente compartilhando e trocando ideias e nos dando verdadeiras aulas não apenas sobre ônibus e caminhões, mas sobre momentos econômicos, sobre como eram as cidades, como eram os comportamentos da sociedade em diferentes épocas e acima de tudo, nos mostrando que vale a pena lutar, ter sonhos e objetivos. Muitos hoje não têm noção de como era mais difícil transportar pessoas e mercadorias por este país. Viagens que hoje são feitas em duas, três horas, demoravam o dia inteiro. Mas os profissionais dos transportes, sejam eles donos dos veículos ou funcionários, mostravam força, perseverança, não se rendiam aos obstáculos e foram fundamentais para o desenvolvimento do País. Se prestarmos atenção na perseverança dos pioneiros dos transportes temos uma verdadeira aula de motivação. E nada mais justo que a VVR para homenageá-los” – disse Antônio Kaio Castro, presidente do Primeiro Clube do Ônibus Antigo Brasileiro.
E os transportes contam histórias em diversos aspectos, desde a forma como eram operados e fabricados os ônibus e até mesmo pelas suas pinturas.
O radialista Marco Antônio Paes desenvolve um trabalho de recuperação da memória das pinturas de ônibus.
Ele pega fotos antigas, anúncios de jornais e de revistas, imagens em preto e branco e depois de pesquisas reconstitui a pintura dos veículos fazendo uso da informática.
“A forma como os ônibus eram pintados revela muito sobre a época na qual estes veículos operavam. Mostra como eram as tradições, se havia prosperidade ou não, mostra as tendências da indústria. Houve a época das latarias prateadas e polidas, das linhas mais sóbrias, dos desenhos mais amplos. O mais interessante nas pinturas é justamente a simplicidade. Antes dos escritórios e agências de marketing e design eram os próprios donos das empresas ou os funcionários que criavam os padrões de pintura. E eu acho que o resultado saía bem melhor, pois era feito com o coração e somente o dono ou o trabalhador da empresa conseguiam puramente, sem outro julgamento de valor alheio à realidade dos transportes, passar suas mensagens e as visões da empresa. Não critico as pinturas atuais e nem as julgo feias, longe disso. Mas percebe-se quando algo é feito com o carinho de quem atua no setor. Destaco a pintura antiga da Viação Cometa e da Expresso Brasileiro. Para quem olhava, aparentemente eram apenas faixas. Mas todas tinham um significado. O resultado saía bom e as pessoas tinham uma boa sensação ao ver essas pinturas, pois mesmo inconscientemente conseguiam captar o espírito e o carinho empregados no momento da elaboração do desenho no ônibus” – explica Marco Antônio Paes.
Ele entregou ao presidente do Primeiro Clube do Ônibus Antigo Brasileiro, Antônio Kaio Castro, dois quadros com as pinturas restauradas de diversas companhias.
E inspirado nos modelos norte-americanos é que foi desenvolvido o Ciferal Dinossauro e posteriormente o CMA Flecha (na foto) pela Viação Cometa. A empresa completou em 2013, 65 anos e para comemorar restaurou um modelo que, pelo design e desempenho, chamava a atenção até mesmo de quem não era entusiasta ou profissional dos transportes. Foto: Adamo Bazani.
E inspirado nos modelos norte-americanos é que foi desenvolvido o Ciferal Dinossauro e posteriormente o CMA Flecha (na foto) pela Viação Cometa. A empresa completou em 2013, 65 anos e para comemorar restaurou um modelo que, pelo design e desempenho, chamava a atenção até mesmo de quem não era entusiasta ou profissional dos transportes. Foto: Adamo Bazani.
Os donos das empresas de ônibus se dedicavam às suas companhias de uma maneira especial, diferentemente do que ocorre hoje. Não que atualmente, os empreendedores ajam de maneira correta ou errada. Mas as realidades são diferentes. Hoje, o empresário de ônibus tem de ser negociador, entender das leis, administrar com uma visão geral do negócio, se relacionar com o poder concedente e até mesmo fazer viagens internacionais para se qualificar e entender das novas tecnologias.
Anteriormente, o empresário dirigia, cobrava, limpava e consertava o ônibus. As empresas de ônibus ainda são negócios predominantemente familiares no Brasil, embora destaca-se o surgimento de grandes grupos empresariais que detém uma parcela significativa dos transportes de passageiros tanto urbanos como rodoviários. Mas até estes grupos tiveram origens familiares.
O negócio dos transportes, em sua maioria, passou de pai para filho. Assim, as atividades tinham laços familiares fortes.
Para muitos colecionadores, restaurar um veículo antigo é muito mais que preservar a história de uma marca. É acima de tudo homenagear os familiares que iniciaram na profissão. É o caso do empresário mineiro Alexandre Eustáquio Cortes, que em 2013, participou pelo segundo ano consecutivo da VVR. Ele possui um Ciferal Flecha de Prata, Mercedes Benz e o restauro deste veículo é uma homenagem ao seu pai.
“Meu pai iniciou os transportes de passageiros em Minas Gerais ainda muito novo. Todos na família ajudavam no serviço. O ônibus era nosso ganha pão, nosso carro de passeio e muitas vezes nossa casa. Eu quase nasci num Ciferal Flecha de Prata do meu pai. Quando minha mãe estava para me dar a luz, meu pai a levou para o hospital com este modelo de ônibus. Via quanto meu pai suava para enfrentar estradas de chão batido, de terra, para levar as pessoas a Belo Horizonte. Hoje ele não está mais fisicamente entre nós, mas este ônibus eu restaurei em sua memória. Vejo este ônibus e sinto que meu pai está conosco de uma maneira especial” – emociona-se Alexandre Eustáquio.
Importante na vida de cada um, importante na vida de todos.
O professor e economista, Ramon Barazal, é um apaixonado por ônibus. Ele falou sobre a importância dos ônibus no crescimento econômico e para a população ter acesso a oportunidades de maior renda e melhores serviços básicos.
“A ferrovia é demasiadamente importante e deveria ser estimulada. Mas não se pode pensar num país com as dimensões continentais como o Brasil sem ônibus. O ônibus é flexível, ele vai onde outros modais não conseguem e ainda hoje é o principal meio para ligar as cidades e permitir que as pessoas possam ter oportunidades de trabalho, estudo. Foi por ônibus que este país escreveu sua história” – disse Ramon Barazal.
Ele foi empresário de ônibus do setor de fretamento na região do ABC Paulista, nos anos de 1970. Sua empresa se chamava Turismo CapiNorte. A companhia foi comprada por outra empresa de ônibus, hoje uma das grandes do setor, a Júlio Simões. Mas o ônibus ainda faz parte da vida do economista, que possui um raro exemplar de um veículo, estilo jardineira, Chevrolet 1963. O veículo tem história, a exemplo dos outros exibidos na VVR. O ônibus pertenceu ao Exército Brasileiro em Brasília. O Chevrolet levava os músicos da banda do exército.
Outro ônibus com várias histórias pelas estradas brasileiras e que despertou saudades em muita gente que visitou a exposição é o CMA Flecha Azul Scania, da Viação Cometa. O ônibus foi restaurado em comemoração aos 65 anos da empresa, uma das mais tradicionais e conhecidas do país. Até mesmo que não reparava muito no design dos ônibus de uma maneira geral, não deixava de se admirar com a imponência e as formas do veículo fabricado pela própria Cometa. O design era inspirado nos norte-americanos GMPD 4104, apelidados no Brasil de Morubixaba, importados em 1954 pela Viação Cometa. Após a ação, a empresa liderou a linha rodoviária que ainda é a mais lucrativa do país, mesmo com a ponte aérea: Rio de Janeiro – São Paulo.
Para dar oportunidade aos entusiastas terem contato com o modelo que marcou a rotina de milhões de pessoas ao longo dos anos nas estradas brasileiras, a Viação Cometa realizou em seus 65 anos, 65 viagens em diferentes rotas do Grupo JCA, atual proprietário da empresa.
Um dos motoristas do ônibus que se tornava a nave dos sonhos e a máquina do tempo nestas viagens especiais, Ricieri Antunes, disse que a cada dia era tocado de uma maneira especial pelo carinho dos passageiros e demais fãs de transportes. “Não esperávamos tanta repercussão e nem sabíamos como era grande a identificação da população com a história da Viação Cometa e com este modelo em especial. O ônibus era fotografado, cercado, as pessoas olhavam de uma maneira diferente. E percebi que não só os busólogos ou outros admiradores eram atraídos pelo ônibus. Ele chamava a atenção de todos. O Flecha Azul é um veículo que inovou. Não há modelo ou carroceria que se compara a ele. É claro que hoje existem projetos mais modernos, mas ele representou muita evolução. A aerodinâmica é excelente, quando mais acelera ele mais estabiliza, balança menos. O Flecha não é apenas um ônibus bonito, ele é bom e trouxe o que era de melhor do mundo em sua época para o Brasil em seu projeto” – conta o motorista.
Os monoblocos (ônibus integrais que uniam chassi, motor e carroceria) representaram a partir dos anos de 1950, um importante passo para a evolução dos transportes no País, com veículos mais confortáveis e seguros. Eles não poderiam faltar à VVR. Foto: Adamo Bazani.
Os monoblocos (ônibus integrais que uniam chassi, motor e carroceria) representaram a partir dos anos de 1950, um importante passo para a evolução dos transportes no País, com veículos mais confortáveis e seguros. Eles não poderiam faltar à VVR. Foto: Adamo Bazani.

NOVIDADE S DO PASSADO E DO FUTURO

A edição de 2013 da “VVR – Viver, Ver e Rever” esteve repleta de ônibus e caminhões que marcaram diferentes épocas e exibiu modelos inéditos, como o Flecha Azul Scania, restaurado pela Viação Cometa em comemoração aos 65 anos da empresa, um modelo GMC norte americano de 1973, um Marcopolo Viaggio Geração V Volvo B 58 da Visp Turismo, Carbrasa GM restaurado pelo Colégio Dante Aliguieri, monoblocos Mercedes Benz expostos pela primeira vez como da São Caetano, da Divinópolis, e da Brasil Sul e o Caio Vitória Mercedes Benz OF 1318, da Viação São José de Transportes, de Santo André, no ABC Paulista.
Modelos tradicionais do evento também despertaram o imaginário e recordações em quem sempre vai à exposição ou para as pessoas que conheceram a VVR pela primeira vez, como as jardineiras (ônibus simples feitos de madeira, de 1929), parte da coleção da Cati Rose, da Turismo Santa Rita, o Papa Fila (uma grande carroceria de ônibus tracionada por um caminhão), um dos primeiros modelos de Trólebus e o ônibus Mônika, ambos da extinta CMTC – Companhia Municipal de Transportes Coletivos, de São Paulo, os Diplomata Nielson de particulares e de empresas como Turismo Rodrigues, Expresso Brasileiro Viação Ltda e da Viação Graciosa, os Flecha Azul de colecionadores individuais, o Ciferal Flecha de Prata de Minas Gerais, e vários outros ônibus e caminhões.
Como ônibus é desenvolvimento e em sistemas modernos deste tipo de transporte está o futuro do deslocamento das pessoas nas cidades e estradas, a VVR mostrou sua outra função: apresentar ao público a evolução. Entre os ônibus modernos exibidos estavam o Irizar i6 – Volvo, da Viação Garcia, o Comil Campione 3.25 – Volkswagen 17-230, da Expresso Redenção, o Caio Apache Vip III Mercedes Benz OF 1721 – Euro V, da São José Transportes e duas unidades do Superarticulado Mercedes Benz O 500 UDA, carroceria Caio Millennium BRT, um da Sambaíba Transportes, da Capital Paulista, e um da Metra – Sistema Metropolitano de Transportes, empresa que opera no corredor Metropolitano ABD, que liga são Mateus, na zona Leste de São Paulo, ao Jabaquara, na zona Sul da Capital Paulista, atendendo também aos municípios de Santo André, Mauá (Terminal Sônia Maria), São Bernardo do Campo e Diadema, além da extensão entre Diadema e a estação Berrini, da CPTM – Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, em outra região da Zona Sul de São Paulo.
Um dos modelos internacionais exibidos na VVR, o ônibus GMC de 1973 marcou as estradas na América do Norte. Foto: Adamo Bazani
Um dos modelos internacionais exibidos na VVR, o ônibus GMC de 1973 marcou as estradas na América do Norte. Foto: Adamo Bazani
O interessante nestes modelos que mostram a evolução é que os ônibus são de diferentes tipos para as mais diversas aplicações, desde os mais simples até os com maior nível de sofisticação. Um retrato da flexibilidade da indústria brasileira e que o ônibus continua sendo um dos principais parceiros da população, indo onde ela estiver, independentemente das condições de acesso e fazendo o tipo de viagem que ela precisar.
Adamo Bazanijornalista da Rádio CBN, especializado em transportes.
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